Filmes de Bruxas

Entrando no clima do Halloween, resolvi indicar alguns dos meus filmes favoritos que têm bruxas para todos aqueles que não vão sair hoje para uma super festa a fantasia ou algo parecido (como eu). Esses filmes são muito legais e tenho certeza que a maioria já os viu. O que não quer dizer nada, já que todos valem a pena serem vistos novamente e ainda mais hoje!
Então vamos à lista:

Esta aí em cima não é a noiva do Freddie Krueger, esta é uma das bruxas do filme Convenção das Bruxas. Eu adorava assiti-lo no SBT quando eu era criança e Anjelica Huston e Rowan Atkinson (Mr. Bean) são ótimos atores que estão no elenco.
Para aqueles que não se lembram: neste filme um garotinho viaja com a sua avó e descobre que no hotel está havendo uma convenção de bruxas. A bruxa líder tem uma idéia para transformar todas as criancinhas inglesas em ratos e o garotinho resolve impedir que isto aconteça. Hoje, depois de ter trabalhado com crianças, eu nem acho que a idéia da pobre bruxa era ruim...
Enfim, continuando, gosto muito da parte em que as bruxas revelam seus rostos horrendos, com narizes cheios de verrugas, e tiram suas perucas, mostrando suas carecas que completam o visual "sou do mal", que vocês podem conferir com a foto. A maquiagem é tão perfeita, ou horrível, que eu sempre achei que poderia ser usada em outros gêneros de filme, não só terror como ficção científica também, vocês não concordam?

Jovens Bruxas
Neste filme as bruxas já têm outra cara, são adolescentes bonitas e descoladas. Esse filme fala de uma menina, Sarah Bailey, que ao se mudar faz amizade com umas garotas que além de serem excêntricas e excluídas, não tinham nada para fazer e por isso se envolviam com bruxaria por diversão. O grupo vai descobrindo o poder da magia colocando feitiços em pessoas ao seu redor até que a situação vai ficando mais grave, quando começam a usar a magia para o mal se vingando de pessoas que as magoaram. Quando Sarah percebe isso resolve se afastar das outras, que deixam de ser suas amigas e passam a ser suas inimigas. Eu acho muito bom o duelo no final entre a Sarah e a Nancy, a chefe das ex-amigas. A atuação das atrizes é muito boa, e ainda tem participação especial de alguns bichos nojentos... É óbvio que conflitos entre bem e mal são fórmulas prontas e na maioria dos casos sabemos quem vence, mas e daí?

Da magia à sedução
Esse filme é sobre uma família de feiticeiras que sofre uma maldição que leva à morte todos os homens que se apaixonam por elas. Tudo isso por causa de uma ancestral que ficou esperando pelo seu amor após ser banida, grávida, para uma ilha. Como ele não apareceu, ela resolveu se enfeitiçar para nunca mais amar alguém de novo. Segundo alguns "a amargura cresceu e o feitiço virou uma maldição, na qual todo homem que amasse uma Owens morreria", mas na minha opinião ela era uma péssima bruxa...
Duas irmãs desta família tentarão trazer de volta à vida o ex-namorado de uma delas, no caso o da personagem da Nicole Kidman, que elas mataram.
Só para efeito de curiosidade, esse filme é baseado num livro de Alice Hoffman, que eu tenho muita vontade de ler.

Harry Potter e o cálice de fogo
Outro filme baseado em livro que eu indico é Harry Potter e o Cálice de Fogo. Os livros da série Harry Potter são muito bons e admito que são melhores que os filmes, mas não há como pensar em bruxaria e não pensar no maior fenômeno do gênero.

Este é o quarto filme do bruxo famoso, e para mim o melhor de todos. As aventuras neste filme são mais perigosas e ainda tem um pouco de romance, tendo em vista que Potter está apaixonadinho. Neste filme, Harry será convidado a participar do Torneio Tribruxo, uma espécie de olímpiadas mágicas entre escolas de bruxaria, onde só os melhores alunos participam. E enquanto o torneio acontece, Lord Voldemort prepara a sua volta. Cheio de efeitos especiais, é o tipo de filme que deve ser visto comendo pipoca.


Receita de Mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e
as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

VINICIUS DE MORAES

Dubai, onde dinheiro demais É demais















Ontem passou na televisão uma reportagem sobre Dubai e eu fiquei encantada e impressionada com o lugar. Dubai é tão rico, tão rico, que lá está sendo construído um arquipélogo, chamado "The World", com quase 300 ilhas no formato do mapa-mundi ! Não sei vocês, mas imaginar algo desta grandeza ultrapassava os limites da minha imaginação. Vocês sabiam que só há um hotel no mundo considerado 7 estrelas? Valendo uma bala juquinha, adivinhem onde que ele se situa...

Entretanto, pensei no quanto é injusto um monte de gente morrer de fome diariamente no mundo e milhões de dólares serem investidos em ilhas artificias que vão enfeitar o globo terrestre. Esta obra é extremamente desnecessária! Extravagâncias como essa acontecem todos os dias e infelizmente ninguém pensa no verdadeiro world. A maioria das pessoas não pensa em melhorar o mundo por dentro, e sim, só por fora. Aliás, sejamos francos: a maioria das pessoas nem sequer pensa no mundo... E com mais sinceridade ainda: a maioria das pessoas nem ao menos pensa.

Eu mentiria se dissesse que não tenho vontade de ser mais uma turista dentre os milhões que visitam Dubai todo ano, aliás isto se tornou um desejo, mas até lá eu tentarei fazer a minha parte, contribuindo na medida do possível para uma sociedade melhor. Assim como Angelina Jolie e Brad Pitt, que aparentemente compraram a ilha do "The World" que representa a Etiópia, mas adotaram um de seus filhos neste país. Logo, peso na consciência zero.


Confiram esses sites:

Aula básica sobre opinião

Se tem uma coisa que me tira do sério, são aquelas pessoas que enchem o peito para dizer "eu falo tudo na cara!". Alguém deveria dizer para elas que isso não significa ser honesto e sim, mal educado. É extremamente rude falar o que se pensa sem se perguntar o que o interlocutor pensará ou sentirá. Imaginem se todo mundo falasse tudo o que pensa na "cara" das pessoas:
-Essa comida nem na África valeria alguma coisa.
-Nossa! Como você é gorda!
-Putz, eu acho você cafona.
Tudo seria um caos. Sou a favor da verdade e da honestidade, mas opinião só é dada quando pedida! E há situações que nem quando é pedida podemos dá-la, e aqueles que tem educação sabem exatamente a hora e a maneira certa de expressar aquilo que pensam.
Vejam os exemplos:
Exemplo 1:
-Meu relacionamento está estranho. Acho que ela está com outro, e você?
-Eu tenho certeza, ela é uma verdadeira piranha!
-Meu relacionamento está estranho. Acho que ela está com outro, e você?
-Eu acho que ela não gosta de você como você dela.
Exemplo 2:
-O que você acha do funcionário novo?
-Bem, chefe...o cara é mais lento que uma lesma!
-O que você acha do funcionário novo?
-Bem, chefe...o RH deixou a desejar.
(Atenção! Vocabulário chulo a partir deste ponto!)
Portanto, que se fodam esse idiotas que querem contar vantagem dizendo que "têm opinião própria" e que saem por aí magoando as pessoas! Opinião todos têm e a minha a respeito desses babacas eu acabei de postar aqui.

Aventura no mundo do Carrefour

Hoje passei por uma super aventura através de corredores e prateleiras cheias ,que começa com a seguinte frase:
- Primeiro o básico!
Fui fazer compras com minhas tias.
Feijão, arroz, açúcar, leite...
De repente, missões importantes são encarregadas:
- Raquel! Pega umas garrafas de refrigerante!
- Raquel! Procura o preço desse biscoito!
- Raquel! Troca esse molho de tomate pelo outro mais barato!
- Raquel! Já que você não está fazendo nada, procura o miojo de yakisoba...
O caminho estava limpo, livre de obstáculos. Só que os desafios, físicos e mentais, afloram inesperadamente.
O peso do carrinho começa a ficar maior que o meu, desviar dos outros consumidores mortais exige uma habilidade que eu adquiri rapidamente.
Os preços pediram um esforço muito grande do meu cérebro, pois eu tinha que compará-los em frações de segundos.
E ainda, tive que guardar energia para pesar as batatas e as cenouras...
A única força que me fazia seguir em frente era a esperança de degustar um pote de Nutella mais tarde...
Quando pensei que a jornada estava no fim, eis que me surge uma cruel inimiga...A FILA.
Senti medo nessa hora... A quantidade de pessoas que buscavam o mesmo objetivo que eu lotaria um avião de grande porte, e seus carrinhos , dois. Ter que esperar muito tempo em pé, não é tarefa para qualquer pessoa. É mais difícil do que encontrar batata pringles por 4 reais.
Vencida a fila, nos deparamos com a mais perversa das criaturas, que temos que enfrentar para sairmos vitoriosos: A MULHERZINHA DO CAIXA.
Quando este ser, nos apresenta a conta, prefirimos por um momento desistir de tudo que conseguimos, com muito esforço, juntar em 3 horas.
Finalmente, usamos a arma secreta: O CARTÃO DE CRÉDITO.
Sem ele, eu não sei o que teria sido de nós...
Ensacamos os nossos prêmios, AS COMPRAS,e voltamos para o carro, felizes eternamente até o mês que vem.


(escrito em 11/2005)

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

FERNANDO PESSOA, ÁLVARO DE CAMPOS

Viver é a coisa mais rara do mundo

Um dia eu li por aí na internet que umas das frases mais famosas de Oscar Wilde são “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” E eu tenho me colocado nesta tal maioria que apenas existe. Todos os meus dias têm sido segundas-feiras nas quais vivo a mesma rotina, sem subtrair ou adicionar nada. Quando me deito cansada à noite, me pergunto o que fiz de bom ou o que vale a pena tentar lembrar para sempre daquele dia. Então sinto que estou perdendo o meu tempo, mas ao mesmo tempo acredito estar aprendendo a valorizá-lo. Pensando nele uma torrente de planos para o futuro, e até mesmo para o presente, me invade, me afogando e me transformando. Sim, não creio que sou a mesma: estou mudando.

Açúcar ou adoçante?

Todos os dias temos que fazer escolhas e todas elas, até mesmo açúcar ou adoçante, podem ter conseqüências nas nossas vidas. Contudo, quando as escolhas têm resultado na vida de outras pessoas, isto é quase sempre, a questão se complica.
O tempo que se leva para saber o que se quer varia de pessoa para pessoa, mas toda decisão tem que ser pensada. Se todos pensassem no quanto suas opções podem interferir na vida de terceiros o mundo talvez fosse um lugar melhor.
Não é justo que outros sofram por opções mal pensadas ou, pior ainda, bem medidas e mesmo assim escolhidas. Neste caso então, faltou senso crítico e amor ao próximo, mas não vou entrar neste mérito. Se a sua opção com certeza atingirá quem está ao seu redor, que pelo menos seja de maneira positiva e construtiva. Do contrário, ainda há a opção de não escolher nada.

Cair e quebrar-me

" Para vê-la mais de perto, a menina correu também e a boneca de porcelana começou a gritar : "Não corra atrás de mim! Não corra atrás de mim!" numa vozinha tão aflita que Dorothy parou para saber o motivo.
-Por que não?
-Porque se eu correr - respondeu a princesa, parando, por sua vez, a uns passos de distância - posso cair e quebrar-me.
-E não tem conserto?
-Tem conserto, mas eu nunca mais vou ser a mesma. "

O MÁGICO DE OZ, traduzido e adaptado por Paulo Mendes Campos

Nós é que fazemos

" O que estou fazendo neste mundo?, perguntou-se Ka. Quão deploráveis parecem esses flocos de neve desta perspectiva, quão deplorável é minha vida. Um homem vive sua vida e então desaparece e não sobra nada. Ka sentiu como se metade de sua alma tivesse acabado de abandoná-lo, mas a outra metade ainda permanecia; ainda havia amor em si. Como um floco de neve, ele haveria de cair quando chegasse a hora. Ele iria se devotar de corpo e alma ao melancólico curso pelo qual sua vida enveredara."
" 'Em sua opinião, qual é a parte mais bela da vida?', perguntou Ka. Houve um silêncio. 'Toda ela!', disse Necip, como se estivesse revelando um segredo. 'Mas a vida não nos torna infelizes?' 'Nós é que fazemos isso. Não tem nada a ver com o universo, nem com seu criador.' "
NEVE, ORHAN PAMUK

O que é um louco?

"- O que é um 'louco'?
- Exatamente. Desta vez vou lhe responder sem fábulas: a loucura é a incapacidade de comunicar suas idéias. Como se você estivesse num país estrangeiro - vendo tudo, entendendo o que se passa a sua volta, mas incapaz de se explicar e de ser ajudada, porque não entende a língua que falam ali.
-Todos nós já sentimos isso.
-Todos nós, de um jeito ou de outro, somos loucos."

VERONIKA DECIDE MORRER, PAULO COELHO

Um chá maluco

" O Chapeleiro [...] disse apenas: "Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?"
"Oba, vou me divertir um pouco agora!" pensou Alice. "Que bom que tenham começado a propor adivinhações". E acrescentou em voz alta: "Acho que posso matar esta."[...]
"Então deveria dizer o que pensa", a Lebre de Março continuou.
"Eu digo", Alice respondeu apressadamente; "pelo menos...pelo menos eu penso o que digo...é a mesma coisa, não?"
"Nem de longe a mesma coisa!" disse o Chapeleiro. "Seria como dizer que 'vejo o que como' é a mesma coisa que 'como o que vejo'!"
"Ou o mesmo que dizer", acrescentou a Lebre de Março, "que 'aprecio o que tenho' é a mesma coisa que 'tenho o que aprecio'!"
"Ou o mesmo que dizer", acrescentou o Caxinguelê, que parecia estar falando dormindo, "que 'respiro quando durmo' é a mesma coisa que 'durmo quando respiro'!" "

AVENTURAS DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, LEWIS CARROLL